domingo, 4 de novembro de 2012

Burgueses Engomados: Criaturas d'um Novo Mundo


   Eles vão e vem. Nas faixas de pedestres e passeios. Com seus crachás balançando caminham em todas as direções. Passam esnobes pelas catracas. Carregam suas bandejas com pose de miss. Parecem querer lhe arrancar as vísceras, seus olhos lhe fitam de cima a baixo. Sentindo-se microscópico você se deixa moldar pelo medo de ser julgado, vira a marionete perfeita daquilo que esperam que seja. Passa a andar em ritmo diminuto, verifica e controla suas pernas para que se movimentem aparentemente “normais”. Tenta ser um clone numa terra de completos estranhos.
   Seus olhos acompanham qualquer movimento, é proibido perder o mais insignificante virar de páginas. Seus ouvidos se esforçam para ouvir os mais quietos murmúrios. Somos as pequenas crianças fascinadas na fantástica e mágica fábrica de chocolates. Tudo é tão diferente, é tão contagiante quanto uma nuvem radioativa. Te infecta instantaneamente, você fala de outra forma, senta tão duro e reto que mais parece ter uma estaca no lugar da coluna. Finge entender tudo na primeira vez, e aos poucos, disfarçadamente, vai fazendo a mesma pergunta 1.352.987 vezes.
   Como Alice caindo no buraco imenso, você aparentemente está em outro mundo. Ainda consigo me aprofundar em contos e histórias. Seus tênis de caminhada se transformaram em lustrosos e horrendos sapatos de couro. Suas bermudas de academia deram lugar às mais discretas calças jeans, com aqueles cortes sociais, presa a seu corpo por uma incômoda cinta de couro combinando com o sapato. As camisetas do time de vôlei cederam espaço no armário para camisas sociais dos mais variados tons. E no fim, você vê que toda a magia envolvida não passa do tempo, outra época da sua vida, o mais definitivo e estampado “Adeus!” à infância, e você cresceu e está trabalhando. Isso parece incrível, mas é das mais comuns e depressivas mudanças da sua vida.
   Você vê que a meia noite chegou para você, e que é hora de acordar da sua vidinha dos sonhos. Entrar na nova realidade leva um tempo, para que o fascínio se transforme em rotina leva tempo. Em meio a essas mudanças, agradeço por não estar passando por isso sozinho. Sei que isso acarretará muitas outras coisas, positivas e não. Mas estou pronto para crescer em todos os aspectos, e espero encontrar o mais harmonioso equilíbrio para a minha vida.