quarta-feira, 12 de junho de 2013

Além da névoa

   Ela chegou mansa pela madrugada, sem alarmes nem grandes recepções. Instalou-se assim de repente. Parece cobrir o mais longe horizonte, não se pode ver o pico dos montes, transforma em branco mar os mais profundos vales. É mais que neblina, tem algo de diferente, hoje ela é encantadora, não deixa sentir falta do sol. Também não permite ver o que está a poucos passos de mim, é um dia diferente, de emoções afloradas, é um dia de inspiração, e tudo mais que se deseje.
   Em dias como esses, somos regidos pelos mais rústicos sentidos. Nosso ritmo é outro, é ditado pela batida dos pés, das vozes e de tudo mais que se possa ouvir, hoje com uma intensidade infinitamente maior. É fascinante essa outra visão de mundo que temos quando somos cegados pela brancura divina. Não somos nós, não decidimos deixar de ver, foi nos imposto, é preciso ter um algo a mais para ver a beleza desses dias, sua complexa e insossa beleza.
   Aos simpatizantes do sol vos digo, qual a magia existe em dia de céu claro? O que resta de misterioso naquilo que se vê limpidamente? O dourar do sol é indescritível, mas é algo além, é você, é o imaginar, ver até onde se pode ir quando não se sabe em que direção está rumando. É o viver animal, em instintos e não razão. É usufruir daquilo que a vida tem de melhor, o que seria do homem sem a imaginação?
   A imaginação é sim, e ao menos pra mim, a base da vida. Mãe da curiosidade a pai da vontade é o sentimento, o dom que nos leva a ir atrás do que se quer. Você não se apaixona por saber que será maravilhoso, se apaixona, por imaginar o quão bom pode ser, e então a curiosidade lhe faz querer experimentar, é ai que a sua vontade te leva até lá, até o seu objetivo.
   A névoa é o sinal, de que o dia, é o mais nosso de todos, não há horizonte, não há um final do campo de visão, até mesmo porque esse não existe, é tudo apenas uma tela em branco. Cabe a você pintar um dia melhor, seus objetivos, pinte a alegria, pinte o amor.  Pegue para você o seu dia, torne-o colorido, ou deixe o escuro, há muito mais naquilo que não se pode ver do que na clareza explicita.
   Não só de alegria é feita a névoa. Existe o pânico, a incerteza e perigo, que se fazem presentes em cada passo e em cada lembrança, resgatadas dos mais antigos momentos, muitos deles não vivenciados, apenas projeções de suas expectativas. O subconsciente trabalha adoidado, criando ilusões amedrontadoras, baseadas em todos aqueles filmes que já viste. É impossível não lembrar daquelas histórias de monstros que lhe foram contadas nos seus mais diversos momentos da infância.
   A névoa toma conta de si. O inimaginável está aí, diante de seus olhos, mas oculto pela névoa esbranquiçada que toma conta dos corpos. É perigoso não saber o que se encontra na névoa, e nos tornamos expectadores de nosso medo. A mente já tomada por diferentes pensamentos trabalha freneticamente para saber o que está no meio da total brancura, os sentidos lúcidos se vão e ficamos alienados em um mundo descrito por nós mesmos. Sozinhos em um lugar diferente, criamos completas distorções do mundo real, trazendo para nossa realidade coisas incapazes de existir.   
O coração acelerado saltando pela boca, os olhos amedrontados procurando sair dali, o medo tomando conta do corpo. Um cheiro fétido exalado no ar, frio que arrepia a espinha, mãos trêmulas e um sentimento de tristeza invadindo-nos. Não há descrição para o quão ruim é ficar em meio à neblina sem consolo e até mesmo sem razão dos próprios atos.
   O cenário obscuro e frio esconde sons misteriosos, criaturas em pranto e desejos moribundos. Transforma uma manhã de sol em um completo pesadelo horrendo, onde a alma congela a dor em si. Traz momentos já esquecidos para nossa memória, fazendo-nos relembrar cada segundo da tormenta.
   Espera-se presenciar o sobrenatural, teme-se vivenciá-lo, torna-se confuso decifrar as sensações, é o pânico de não ter certeza. Invasões alienígenas, a aniquilação da vida, tudo parece muito possível. Mas com certeza, a ficção não é o ápice do seu medo. Você teme muito mais aqueles assassinos, disfarçados no seu grupo de amigos, que hoje, jamais serão revelados, eles surgem do nada, te fazem estar onde eles querem, e hoje, nem você sabe onde está.
   Há uma certa resistência em atender ao telefone, afinal, muito trabalhadas as ligações da morte, de todas aquelas pessoas que você tentava salvar enquanto gritava e xingava nos filmes de terror. Não há telas, não há roteiro, impossível dar pause ou fechar os olhos em busca de fugir da agonia, é pra valer, ainda mais se a arte realmente imitar a vida, então, tudo isso existe, e está em algum lugar.
   Você se sente fraco e vulnerável. Está sozinho em meio à multidão, parece ouvir as músicas que emocionam enquanto agonizas até a morte, parece estar sendo apunhalado, e ninguém lhe vê. Podes sentir a dor de ter as vísceras arrancadas, a agonia, a inquietude, é tudo muito real, são pesadelos, é estar sonhando acordado. Já era para tudo ter passado, mas ela continua lá, branca e imponente, tanto quanto antes, não parece ter fim, parece se fortalecer à medida que nos assombra.
   Você pode se trancar dentro de casa, mas, ela já pode estar lá, com tudo que cabe nela. É então que há motivos para o desespero, ela te cerca. O barulho lá fora se torna suspeito, é ensurdecedor, tal qual a quietude demasiada. Torna-se viciante, é um jogo bobo, nem mesmo existe, mas é muito real na sua cabeça. É a sua imaginação, são os seus medos, que vem suprir a falta da sua visão, que não passa da janela, na qual temes ver algo que não queira, mas ao mesmo tempo lhe excita a idéia de adrenalina e risco.
   A névoa continua ali, pronta para que você a aprecie, ou evite. Ela continua branca como a mais alta das nuvens, como a mais densa condensação do medo. Ela é a lacuna deixada pela incerteza, ela não explica, não da respostas. Ela espera e exige as suas conclusões, do que cabe nela pelo olhar da sua mente. Se enxergas amor ou ódio, se vês a praia ou o pântano. Procure na sua mente, a sua névoa é rica, é de pessoas ou fantasmas, alegria ou tristeza, é o que quiser. É o medo de amar, ou o amor pelo medo. Apenas escolha.
Texto feito em parceria com Djeanine, autora do www.feelingsandalcohol.blogspot.com