terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Quando saio sem mim


                 Play! A batida instantâneamente começa a invadir a minha cabeça. Calço os tênis e me vou. Não sei o que me aconteceu hoje. Simplesmente resolvi andar. Sair por aí. Defini um caminho e sai caminhando. Na mente o alívio dos pensamentos abafados pela música. Me sinto forte e leve. O sol ainda está alto, mas pretendo que quando eu voltar ele já esteja mais brilhando. Me faz bem esquecer de tudo enquanto exijo esforço apenas de meu corpo físico.
            Já andando comecei a pensar na junção dos isolados mundos do que vejo e ouço. Passo a prestar atenção ao que estou presenciando. Os carros passam sem fazer barulho. As pessoas movimentam os lábios mas não há palavras. É uma sensação de se tornar espectador da minha própria vida. Coisas que estavam escondidas no meu dia-a-dia se mostram deslumbrantes agora. Cada canção uma sensação. De Pitty a Aguilera, estilos, ritmos e vozes variadas. Algumas vezes me dá vontade de cantar junto, outras, apenas quero ouvir a letra.
              Chego enfim a avenida pela qual passei todos os dias durante seis anos. Mas hoje ela está diferente. A eterna imensidão de quinhentos metros está deserta, exceto pela presença das flores e aves, que se encontram em toda a rua. Parece uma pintura. Ainda mais, pelo sol poente que me atinge de perfil, fazendo com que minha sombra alcance a outra margem da rua. Sempre esteve tudo aqui, do jeito que está agora, mas foi preciso que eu estivesse vazio de ideias para pensar nessa beleza do cotidiano.

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