Play! A batida instantâneamente começa a invadir a minha
cabeça. Calço os tênis e me vou. Não sei o que me aconteceu hoje. Simplesmente
resolvi andar. Sair por aí. Defini um caminho e sai caminhando. Na mente o
alívio dos pensamentos abafados pela música. Me sinto forte e leve. O sol ainda
está alto, mas pretendo que quando eu voltar ele já esteja mais brilhando. Me
faz bem esquecer de tudo enquanto exijo esforço apenas de meu corpo físico.
Já andando comecei a pensar na junção dos isolados mundos
do que vejo e ouço. Passo a prestar atenção ao que estou presenciando. Os
carros passam sem fazer barulho. As pessoas movimentam os lábios mas não há
palavras. É uma sensação de se tornar espectador da minha própria vida. Coisas
que estavam escondidas no meu dia-a-dia se mostram deslumbrantes agora. Cada
canção uma sensação. De Pitty a Aguilera, estilos, ritmos e vozes variadas.
Algumas vezes me dá vontade de cantar junto, outras, apenas quero ouvir a
letra.
Chego enfim a avenida pela qual passei todos os dias
durante seis anos. Mas hoje ela está diferente. A eterna imensidão de
quinhentos metros está deserta, exceto pela presença das flores e aves, que se
encontram em toda a rua. Parece uma pintura. Ainda mais, pelo sol poente que me
atinge de perfil, fazendo com que minha sombra alcance a outra margem da rua. Sempre
esteve tudo aqui, do jeito que está agora, mas foi preciso que eu estivesse
vazio de ideias para pensar nessa beleza do cotidiano.

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