Queremos todos escondê-los, mas são eles que nos tornam
quem somos. Sentimos medo até mesmo para aceitar que os temos. Fingimos que
nada nos amedronta para esconder nossas supostas fraquezas, achamos mais
interessantes passar a imagem de fortes. Cá pra nós, temos que confessar que
medo cada um tem o seu e todos têm alguns. São eles que influenciam nossas
escolhas, nos fazem pensar e gostar de diferentes coisas. Moldam nossa vida de
modo que nos sintamos seguros, envoltos em uma monotonia protetora, que não nos
permite grandes sustos ou mudanças.
É muito revelador, fala muito sobre mim. Mas ao mesmo
tempo torna tudo muito confuso. Meus medos pairam por uma área ilimitada de
campos e significados. Vão de medos bobos, à outros que viram minha cabeça do
avesso. Temo coisas infantis, como a escuridão e tudo que nela cabe, os sons e
mistérios vistos sem os olhos, criados pelo cérebro que parece brincar com a
situação. Entro em pânico ao ver aranhas, isso vem de família, mas é algo muito
forte que me impede de agir, congela-me e apenas me permite afastar-me. São
medos comuns, tidos por muitas pessoas, mas que para cada uma delas representa
algo diferente e único.
Alguns medos vão além, perturbam-me a todo o momento,
causam exaustão psicológica e bagunçam meus pensamentos. Deixa-me deprimido,
sofrendo e com uma profunda tristeza, imaginar minha vida sem aqueles que amo.
Perdê-los seria algo desconcertante, perderia o chão. Essa ideia me faz
perceber o quão impotente sou em relação ao passar do tempo. O futuro incerto,
sem programação e cheio de possibilidades me faz temer que cada dia seja o
último. Essa incerteza constante me leva ao mais definitivo dos medos.

Não quero um dia, quando já velho, olhar para trás e
perceber que vivi uma vida vazia. Temo linhas em branco no meio de uma história
chata e entediante. Gostaria de desfrutar das mais intensas sensações. Fazer as
coisas mais idiotas e ser feliz de maneira única. Quero olhar para tudo que
vivi e ver que quando criança já comi terra, que já quebrei o braço subindo
muros. Quero ter caído no meio de festas, que todo mundo tenha rido de mim por
algo embaraçoso. Quero ter tido um amor de verão, ter dormido com alguém que
não conhecia. Quero ser levantado da calçada por um amigo quando a bebida
amolecer minhas pernas. Saber que fui a brinquedos radicais, e que adulto,
brinquei de balanço. Quero ter um minuto que seja de briga, quebrar copos por
raiva, andar na chuva só com meus pensamentos. Quero ter levado uma vida fora
do normal, que todas as curvas que fiz tenham me levado a um bom destino. Quero
ter amigos para encontrar e relembrar estas histórias. Espero morrer como quem
soube viver, que criou seus filhos, cuidou dos netos, e que, mesmo fora de
qualquer padrão, fez o que todo mundo faz.


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