quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A chuva que quer cair


Ora Ora! Há quanto tempo que não te via por aqui. Nem mesmo nos horizontes mais distantes. Sentia falta de teu aroma. De teu frescor. Há muito que não me banho em tuas águas que caem cada vez como se fosse única. Lá vem você. Tímida. Vem pelos arredores, como se quisesse fechar o cerco, me encostar na parede, e me deixar sem saída. Está escura, muito amedrontadora. Já não me lembrava de tua agressividade, da tua voracidade. Vem ao chão com a força de um cavalo. Como se disso dependesse a tua existência.
Traz contigo estrondos  ensurdecedores
, e um show de luzes que me assustam e fazem tremer o ar. Tampas o sol e chora. Chora quando toca o chão. Esfrias a terra e a apagas o pó. Cai em todos os sentidos, parece dançar balé, traça linhas imaginárias no céu. Cobre toda a superfície lisa da janela, e depois, calma, escorre limpa. E teu barulho entra na minha sala e ecoa. Sem ritmo, tampouco melodia, apenas soa bonito, parece me convidar.
Mas daqui de dentro não consigo desfrutar de tudo que tens. É preciso sair. Basta que eu boto a cara para fora, e teu cheiro já está impregnando minhas narinas, é um cheiro de terra molhada. O cheiro da minha infância. Quando eu passava todos os dias de chuva brincando com você. Deitava nas poças e me lambuzava com a lama e a água que escorriam na beirada da rua. E depois lentamente você ia, escorria pelo chão, enquanto no céu cedia lugar para os raios de sol. Ou então dividia espaço com ele. Coisa que eu costumava dizer: Sol e chuva, casamento de viúva.Mas hoje chuva, o que quero de ti é um conselho, me lave a alma. Quero que me mostre o caminho a seguir, Já brinquei contigo, da mesma forma que a temi. Mas hoje a quero calma, amiga. Quero que suas águas me lavem e levem. Me levem para a felicidade, e levem de mim o que não presta. Carregue os sonhos impossíveis, os medos e as angústias. Apenas chova, troveje e relampeie. Pois como após dias ruins sempre vem dias melhores. Depois da tormenta sempre vem o arco-íris, que há de me mostrar a direção em que brilha o sol. Vai me levar à tempos melhores e à um amor real.

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