Alguém
aí? Somente o eco da minha voz responde. Não. Estou sozinho. De novo. Peraí,
foi você quem insistiu para que todo mundo fosse passear. É verdade. Mas eu não
queria. Talvez só um pouco. Mas já passou. E ninguém voltou ainda. Faz somente
uma hora que todo mundo saiu, e a paz e o silêncio começam a confundir minha
cabeça. É uma coisa de querer um minuto de silêncio, só para mim, ninguém me
pedindo favores, vindo tirar satisfação, ter o volume da tv quase no minimo,
ter calma. Mas ao mesmo tempo a solidão me assusta, o silencio me perturba, e
os poucos barulhos que existem, agora são amedontradores.
Falando
assim, até parece que me abandonaram em um mundo desconhecido. Mas se trata
apenas da minha casa, a minha sala de estar. Todas as minhas coisas estão ao
meu redor. Mas não há nada além de mim encolhido no canto. Com medo da minha
sombra, que se confunde com o mofo na parede. A realidade muda. E esse meu
minuto já parece ano. O tempo toma outra proporção. E ainda faltam três dias
para todo mundo voltar.
O
sol está alto lá fora. Mas eu nem ao menos abro a cortina. Me aprisiono e, me
isolo dentro das quatro paredes que demarcam meu mundo. Daqui não vou sair, e
aqui nada vai entrar. Serei somente eu. Acompanhado de meus medos, manias e
sentimentos. Tento me enterter com um livro, mas o silêncio continua me
perturbando, não consigo me concentrar. Cadê minha mãe e meu irmão brigando
nessas horas? Ah! Lembrei, eu os convenci a ir viajar.
Na
sala meu estojo de cd’s e meu cd player estão esquecidos. Isso. Uma música
anima o ambiente. Ao menos até a terceira faixa, quando a música ou me dá medo,
me deixa com saudade, ou é muita romântica para um ser que se encontrar em
total e completa solidão. As pessoas me ligam pedindo se estou bem. Isso me
causa um efeito contraditório. Fico feliz em saber que se preocupam e lembram
de mim. Mas por outro lado, estão pensando o que? Acham que não sobrevivo a
três dias sozinho? Mas... será que eu consigo?
A
rotina começa a ficar estranha, como se não desse tempo para fazer tudo. Sem
falar na comida apressada que faço, se é que o que faço merece ser chamado de
comida. Tudo parece estar em seu lugar. Só eu que estou perdido dentro de casa.
A televisão não tem graça. O computador parece não me oferecer interatividade. Jogar
videogame por quê? Não tenho ninguém para quem contar minhas vitórias. Um sinal
de vida vem em forma de uivo. Poisé, eu tenho um cachorro. Ele está com fome. E
eu tenho que ir lá fora alimenta-lo. Ir lá fora me parece tçao ameassador. Mas
eu vou. E tudo ocorre bem. A operação foi um sucesso.
Me
sento em frente a televisão. Começa o Jornal Nacional. E quando eu vejo já
estou boçejando. Sinais da monotonia de estar sozinho e não querer ninguém por
perto. Decido ir dormir. Mas é automático, a cada quinze minutos me levanto.
Nem dormir eu consigo sozinho. Acordo finalmente me arrumo para o colégio. E
nem um som é emitido. Fecho a casa e vou para a aula. Mas logo estou de volta.
Devolta a minha solidão enlouquecedora. Tomo meu banho ouvindo televisão, somente
os jornais do meio-dia. Almoço por volta das duas horas.
Essa
já não é mais a minha vida. Não estou vivendo, estou sobrevivendo. Queria todo
mundo de volta. Mas por quanto tempo? Sei que logo precisarei do meu minuto de
descanço. Talvez eu deva sair, respirar, aliviar... sei lá. É mais fácil dar
uma pausa, do que afastar as pessoas de mim. E o tempo também é menor. É
preciso ter a certeza de que ao chegar em casa todo mundo estará lá. E você não
ficará na solidão de estar de sozinho. Você terá ao seu lado tudo o que
precisa, para que sua vida seja normal, louca e estressante. Até tudo acontecer
de novo.

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